Marina Casagrande
Elas chamam agora Meredites. As Meredites. Na verdade, não parei muito pra pensar na presença delas. Principalmente dela, que de tanto senti falta esses anos em que a capital de São Paulo nos distanciava. Distância entre “aspas”, entre físico vez ou outra claro. Pois as experiências que tive lá, em companhia justamente dela , me fizeram ser hoje.
São elas que me encontram logo após uma densa aula de dialética do concreto. Onde a ciência e a prática são ferozmente discutidas. Ainda me acostumo com essa tal de ciência. A vida sempre foi tão prática. Os sentimentos sempre foram sem explicação. Pois é, a ciência explica que a prática vem da essência de sobrevivência do homem e os sentimentos vêm da química.
É o fim de semana da Virada Cultural. Estamos no campus. Eu, numa aula de metodologia de pesquisa, sem saber que ela está lá; pois é que ela resolveu ver o que acontecia na sua reposição de aula e, aproveitando, me encontrar. Qual surpresa é que ela já estava conversando há meia hora com um colega da minha classe. Sempre admirei essa facilidade de contatos e sociabilidade que ela desenvolve; e sempre entro na dela quando estamos juntas. Enfim, o colega vai me chamar dizendo que tem uma amiga a minha procura;
Ela me encontra com um simpático “ooiii Marys”; e com o entusiasmo de uma Virada Cultural. Que começava a acontecer em Londrina. Até o ano passado, esta Meredite era uma cidadã paulistana. A Virada Cultural estava a uma passagem de metrô de sua casa.
Até me encontra também a nostalgia da Virada no ano passado. Estávamos juntas, é claro. Juntas no teatro municipal, na tenda de circo com pipoca, nas bombas durante a madrugada e no show do Zappa. Estávamos em auge de energia, que certa hora foi recarregada com um café da manha como só São Paulo tem em padarias de esquina e uma ducha gelada. Estávamos juntas quando enxergamos o Anhangabaú às nove da manhã. Um Anhangabaú colorido por cangas, saias e chequerês de maracatu e famílias.
Volto para o presente e vejo que este é o ano da Virada em Londrina. E a Virada por aqui seguiu com horas de dialéticas e minutos de percussão; fim de tarde com reflexão e estudos de causos da vida, discussão sobre a paz e o seu símbolo, tudo isso durante um samba de raiz, no aterro da cidade. A virada do Saber. E da troca. Ela falava dela e da vida dela, eu falava de minha vida e de mim – sabemos que, algumas vezes, nossas vidas podem não significar nós; nessas vezes, alguma coisa pode estar errada –, como se estivéssemos descobrindo coisas sobre nós mesmas justamente por colocar em palavras para a outra. E falávamos para nós. Se falássemos algo que um minuto mais tarde já não seria a mesma, tínhamos a liberdade para contestarmos nós mesmas.
Terminamos o dia de pés descalços, sambando “é melhor ser alegre que ser triste...” ao som de Zé do bode. Aos poucos, a gente volta. Principalmente porque a Virada de nossa vida não acabou.
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Um comentário:
Opa!
recebi, de surpresa, a divulgação do blog em meu e-mail...
resolvi entrar e ver como é.
e aí?
e aí, gostei!
passarei mais vezes...
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