terça-feira, 20 de maio de 2008

Virada Cultural

Marina Casagrande
Elas chamam agora Meredites. As Meredites. Na verdade, não parei muito pra pensar na presença delas. Principalmente dela, que de tanto senti falta esses anos em que a capital de São Paulo nos distanciava. Distância entre “aspas”, entre físico vez ou outra claro. Pois as experiências que tive lá, em companhia justamente dela , me fizeram ser hoje.

São elas que me encontram logo após uma densa aula de dialética do concreto. Onde a ciência e a prática são ferozmente discutidas. Ainda me acostumo com essa tal de ciência. A vida sempre foi tão prática. Os sentimentos sempre foram sem explicação. Pois é, a ciência explica que a prática vem da essência de sobrevivência do homem e os sentimentos vêm da química.

É o fim de semana da Virada Cultural. Estamos no campus. Eu, numa aula de metodologia de pesquisa, sem saber que ela está lá; pois é que ela resolveu ver o que acontecia na sua reposição de aula e, aproveitando, me encontrar. Qual surpresa é que ela já estava conversando há meia hora com um colega da minha classe. Sempre admirei essa facilidade de contatos e sociabilidade que ela desenvolve; e sempre entro na dela quando estamos juntas. Enfim, o colega vai me chamar dizendo que tem uma amiga a minha procura;

Ela me encontra com um simpático “ooiii Marys”; e com o entusiasmo de uma Virada Cultural. Que começava a acontecer em Londrina. Até o ano passado, esta Meredite era uma cidadã paulistana. A Virada Cultural estava a uma passagem de metrô de sua casa.
Até me encontra também a nostalgia da Virada no ano passado. Estávamos juntas, é claro. Juntas no teatro municipal, na tenda de circo com pipoca, nas bombas durante a madrugada e no show do Zappa. Estávamos em auge de energia, que certa hora foi recarregada com um café da manha como só São Paulo tem em padarias de esquina e uma ducha gelada. Estávamos juntas quando enxergamos o Anhangabaú às nove da manhã. Um Anhangabaú colorido por cangas, saias e chequerês de maracatu e famílias.

Volto para o presente e vejo que este é o ano da Virada em Londrina. E a Virada por aqui seguiu com horas de dialéticas e minutos de percussão; fim de tarde com reflexão e estudos de causos da vida, discussão sobre a paz e o seu símbolo, tudo isso durante um samba de raiz, no aterro da cidade. A virada do Saber. E da troca. Ela falava dela e da vida dela, eu falava de minha vida e de mim – sabemos que, algumas vezes, nossas vidas podem não significar nós; nessas vezes, alguma coisa pode estar errada –, como se estivéssemos descobrindo coisas sobre nós mesmas justamente por colocar em palavras para a outra. E falávamos para nós. Se falássemos algo que um minuto mais tarde já não seria a mesma, tínhamos a liberdade para contestarmos nós mesmas.

Terminamos o dia de pés descalços, sambando “é melhor ser alegre que ser triste...” ao som de Zé do bode. Aos poucos, a gente volta. Principalmente porque a Virada de nossa vida não acabou.

Um comentário:

Giovanni Nobile Dias disse...

Opa!
recebi, de surpresa, a divulgação do blog em meu e-mail...
resolvi entrar e ver como é.
e aí?
e aí, gostei!
passarei mais vezes...